Depois do fim: o que permanece sagrado quando tudo parece ruir

Depois do fim: o que permanece sagrado quando tudo parece ruir
Há dias em que as notícias sussurram catástrofes e o ar parece mais denso. Não é preciso muito: uma manchete, um alerta no celular, o olhar vazio de alguém no metrô. E de repente, como num sussurro cósmico, a alma se encolhe e pergunta:
— O que ainda vale a pena sustentar quando tudo parece ruir?
Vivemos tempos em que o colapso se tornou pano de fundo do cotidiano. Guerras persistem, a natureza se agita, inteligências artificiais avançam sobre territórios humanos, e uma pandemia silenciosa de ansiedade, solidão e desesperança contamina corações.
Mas mesmo nesses dias, algo persiste. Algo sutil, quase imperceptível, que não se rende. Um fio de esperança que, embora frágil, insiste em florescer.
Quando o caos vira rotina
O caos contemporâneo não vem apenas em grandes tragédias. Ele escorre pelas pequenas rachaduras:
• A mesa vazia no jantar da família que se desfez
• O silêncio de uma amizade que se perdeu no tempo
• A frieza com que passamos por alguém caído na rua
O mundo parece gritar desamparo. Mas no meio disso tudo, se olharmos com mais atenção, há detalhes que resistem. E esses detalhes, por menores que sejam, carregam o sagrado do cotidiano.
Pequenas cenas de permanência
Lúcia, uma mulher de 68 anos, acorda todos os dias às 6h para preparar o café, mesmo morando sozinha desde que o marido faleceu. Coloca duas xícaras na mesa. Uma é para ela. A outra, ela nunca retira. “Para o que ainda vive em mim”, diz.
Em outra cidade, um jovem chamado Davi cuida de uma gata encontrada doente na rua. Ele não tem muito, mas divide a comida e o cobertor. Nunca teve um animal antes. Mas diz que o silêncio dela o cura mais que qualquer palavra.
E Joana, professora, mesmo exausta de um dia inteiro de más notícias e indiferenças, reserva dez minutos para ler poesia em voz alta para si mesma, como um ritual de beleza em tempos áridos.
Esses gestos aparentemente banais não fazem manchetes. Mas sustentam a alma.
O que não desmorona
Mesmo que os sistemas caiam, que a lógica falhe, que o mundo se torne hostil, algumas coisas continuam:
• O impulso de contemplar um pôr do sol
• A coragem de escutar, mesmo sem ter o que responder
• A capacidade de oferecer o que se tem, mesmo que seja pouco
O sagrado, nesses tempos, não grita. Ele sussurra. Ele se revela em silêncio. Em gatos que permanecem imóveis ao nosso lado, guardiões invisíveis da calma perdida. Em flores que nascem entre os escombros. Em pessoas que escolhem continuar amando, mesmo sem garantias.
Gatos e o mistério do não-fazer
Na casa de dona Cecília, dois gatos caminham com leveza entre os cômodos. Parecem alheios ao que acontece lá fora, mas sempre estão onde precisam estar: ao lado dela quando ela chora, deitados ao sol quando o dia amanhece sombrio.
Ela diz que os gatos a lembram de algo essencial: “Nem tudo precisa ser dito. Nem tudo precisa ser feito. Basta estar.”
Esses animais silenciosos são símbolos do sagrado no cotidiano. Guardiões invisíveis que, sem palavras, nos ensinam a arte do não-fazer. A contemplação. O repouso como forma de oração.
Fé como resistência
Hoje, talvez ter fé seja isso: sustentar o invisível mesmo quando tudo visível desmorona. É seguir acendendo a vela, mesmo quando falta luz. É continuar escrevendo cartas de amor, mesmo sem respostas.
É alimentar o corpo e a alma com beleza, mesmo quando o mundo exige pressa e dureza.
A fé não precisa ser barulhenta. Pode morar em gestos mínimos:
• Preparar um prato com carinho
• Escutar sem interromper
• Ajeitar a almofada para quem vai chegar
Altar íntimo no cotidiano
O sagrado hoje talvez não esteja nos templos, mas nos pequenos altares improvisados da rotina:
• Um botão antigo guardado com afeto
• Uma fotografia que lembra que já houve amor
• Um canto da casa onde bate o sol e se respira melhor
Transformar a casa em altar não exige incensos ou rituais complexos. Basta presença. Basta intenção. Basta acolher o silêncio.
Prática simbólica: O altar da permanência
Escolha algo simples: uma pedra, um galho, um livro querido. Coloque em um canto visível.
Sempre que passar por ali, respire e diga interiormente:
“Mesmo agora, há beleza. Mesmo aqui, ainda floresce.”
Deixe que esse gesto se repita por dias. Sem obrigação. Apenas como um lembrete de que, apesar de tudo, há permanência.
O sagrado é o que sustenta
Os benefícios de cultivar o sagrado em tempos incertos são reais, ainda que silenciosos:
• Reduzem a ansiedade
• Aumentam a conexão com o momento presente
• Alimentam a dignidade interior
• Criam resistência poética frente ao colapso externo
É assim que a alma sobrevive. Não com soluções rápidas, mas com raízes profundas.
Perguntas para contemplar
• O que permanece em mim, mesmo quando tudo fora parece cair?
• Que pequenos gestos me conectam ao que é eterno?
• Onde posso criar hoje um pequeno altar de permanência?
Por José Ràmmos

Compartilhar:

Publicações Relacionadas

plugins premium WordPress