A vela que insistiu em não apagar

Era uma noite de verão quando faltou energia no bairro inteiro. A casa de Dona Lúcia mergulhou em silêncio e escuridão.
As crianças reclamaram, o marido resmungou, e ela acendeu uma vela grossa, colocada no centro da mesa.
O vento entrava pela janela semiaberta, soprando de leve a chama. A cada rajada, todos esperavam que a vela se apagasse. Mas, de modo quase teimoso, a chama se inclinava, tremia, mas permanecia acesa.

Sentados em volta da mesa, os filhos se acalmaram. O marido, que antes resmungava, começou a contar histórias antigas. Entre risos e lembranças, o tempo passou mais rápido.
Era como se aquela chama, pequena e frágil, fosse suficiente para sustentar a esperança da noite.
Dona Lúcia, olhando para a vela, sentiu um arrepio diferente: “Deus também fala assim. Mesmo quando tudo parece querer apagar, algo insiste em permanecer.”

A simbologia da chama
Na tradição espiritual, a chama é presença, é vida, é oração silenciosa. Uma vela acesa atravessa o tempo como um lembrete de que a luz interior não depende das circunstâncias.
Naquela casa, a luz elétrica havia falhado. Mas a vela resistia.
E, naquele momento, tornou-se símbolo da própria família: mesmo em meio a crises, dívidas e preocupações, havia algo que não se deixava apagar.

o hospital
Meses antes, Dona Lúcia havia passado por uma situação semelhante. Na capela do hospital onde a irmã estava internada, ela acendeu uma vela diante da imagem sagrada. O vento da porta quase a apagou, mas a chama continuou firme, iluminando discretamente o ambiente.
No dia seguinte, a irmã melhorou de forma inesperada. Para Dona Lúcia, aquela chama era mais que cera e pavio: era sinal de presença.

O olhar
O filósofo Marco Aurélio escreveu: “O fogo prova o ouro, e as dificuldades provam o homem.”
Assim como a chama da vela se fortalece ao resistir ao vento, o espírito humano também cresce quando enfrenta adversidades.
O que parecia fragilidade, uma chama vacilante mostrou-se força silenciosa. Essa é a sabedoria estoica: não lamentar o vento, mas agradecer porque ele nos mostra a capacidade de resistir.

A linguagem do cotidiano
A vela que não se apagava ensinou a família que:
• O sagrado se manifesta em gestos simples.
• Mesmo a menor luz pode iluminar um ambiente inteiro.
• A vida sempre encontra meios de se sustentar, mesmo quando tudo parece contrário.
Quantas vezes você já se surpreendeu com forças que insistem em permanecer quando tudo parecia dizer o contrário?

O gesto silencioso como oração
Naquela noite sem energia, ninguém fez orações em voz alta. Mas a vela que queimava, teimosa, foi oração viva.
Cada segundo de luz era um pedido silencioso para que a esperança não se apagasse dentro deles.
E, quando a energia voltou, já madrugada, ninguém correu para desligar a vela. Deixaram-na queimar até o fim, como agradecimento.

Perguntas ao leitor
E você?
• Já presenciou algo simples resistindo contra todas as forças?
• Tem percebido que sua própria vida é como uma chama que insiste em permanecer?
• O que em você ainda não se apagou, apesar de todas as tempestades?

Conclusão
Na manhã seguinte, sobre a mesa, restava apenas a base da vela derretida. Mas a lembrança da noite iluminada por aquela chama nunca se apagaria.
Dona Lúcia guardou o pedaço de cera como quem guarda um tesouro.
Sabia que, em cada vento que quase apaga, há também um mistério que sustenta.
Porque o divino se revela assim: na chama que insiste em permanecer quando tudo parece dizer que não.
E, às vezes, é exatamente essa luz pequena que nos lembra: a esperança não se apaga.

Por José Ràmmos

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