Gestar o Invisível: Quando a Alma Também Gera

O tempo que não cabe no relógio
Nem todo tempo pode ser medido em ponteiros. Há um tempo que pulsa em outro ritmo, interno, mais lento, mais profundo. Um tempo que escapa das horas cronometradas e dos prazos apertados, para habitar o espaço do invisível. Nesse lugar, algo se prepara para nascer. Não apenas em um corpo, mas na alma.
Esse tempo da gestacão invisível é como o intervalo entre duas ondas. Um intervalo sagrado, de escuta, de paciência, de silêncio. Uma mulher pode carregá-lo no ventre, mas qualquer ser humano pode carregá-lo na alma. E mesmo que não saibamos exatamente o que estamos gerando, algo se move lá dentro: uma ideia, um perdão, um recomeço, uma nova forma de ver o mundo.
Quando o tempo desacelera por dentro
Lá fora, o mundo grita. O trânsito, as notificacoes, o medo, os boletos. Mas dentro, algo sussurra.
Gestar o invisível exige um tipo de silêncio que não se impõe, mas que convida. Não é sobre se isolar do mundo, mas sobre abrir espaço para escutar o que se move nas entrelinhas da vida. E isso pede um tempo novo:
• O tempo da escuta interior.
• O tempo da espera ativa.
• O tempo da presença no gesto pequeno.
A alma, como uma gestante, se recolhe não por fraqueza, mas por sabedoria. Ela sabe que há processos que não podem ser apressados. Assim como um fruto só amadurece no seu tempo, também o invisível floresce quando encontra o solo certo: o da esperança tranquila.
O invisível que quer nascer
Talvez você não saiba nomear, mas sente. Um incômodo leve, uma vontade silenciosa, uma saudade de algo que ainda não viveu. Esse é o sinal: algo quer nascer dentro de você.
Pode ser um novo caminho, um projeto, uma reconciliação com a própria história. Pode ser a coragem de mudar de cidade, de abrir um negócio, de perdoar um pai ausente ou uma parte esquecida de si mesmo.
Às vezes, não gestamos um ser, mas um sentido. Uma nova forma de olhar para os mesmos dias. Um jeito mais amoroso de se tratar. Um ritmo mais respeitoso para viver.
E isso tudo precisa ser nutrido. Com tempo. Com ternura. Com paciência.
Gatos, silêncio e o sagrado no cotidiano
Aqui em casa, há duas gatas idosas. Elas não falam, não pedem, não se apressam. Mas sua presença silenciosa me ensina a gestar o invisível. Deito no sofá e uma delas se aconchega em meu colo. O mundo pode estar em colapso, mas ali, naquele instante, tudo está em paz.
Os gatos são como guardiões invisíveis do tempo interior. Eles nos lembram que é possível viver em outro ritmo. E que o sagrado às vezes está em não fazer nada, apenas ser.
A presença felina se soma ao silêncio da casa, criando uma atmosfera que acolhe o que ainda não nasceu. E assim, sem alarde, algo se gesta.
Rituais pequenos, significados grandes
Numa gestacão, tudo vira ritual: o cuidado com a comida, o repouso, o carinho com o corpo. Mas mesmo quem não está gestando fisicamente pode criar pequenos rituais que nutrem o invisível.
• Acender uma vela ao anoitecer.
• Respirar antes de iniciar o trabalho.
• Anotar sonhos, ideias, intuições.
• Cuidar de uma planta ou de um animal com presença.
Esses são gestos que criam um útero simbólico. Espaços onde a alma pode repousar, se reorganizar e preparar o que virá. A espiritualidade cotidiana mora nesses detalhes. Neles, o tempo ganha outro sabor.
A espera como mestra
Aprender a esperar é talvez uma das lições mais difíceis da vida. Vivemos no tempo do clique, do imediatismo, do tudo para agora. Mas a alma não tem pressa. E o que é verdadeiro não pode ser apressado.
Na espera, aprendemos a confiar. A soltar o controle. A perceber que nem sempre o que queremos é o que precisamos.
Esperar também é um gesto de amor.
É dizer ao invisível: “Eu acredito em você. Estou aqui, nutrindo seu nascimento.”
Prática simbólica: Ritual da alma que gesta
Hoje, reserve alguns minutos apenas para você.
1. Sente-se com conforto. Leve as mãos ao centro do ventre.
2. Respire fundo e pergunte-se:
o “O que estou gerando em mim neste momento da vida?”
3. Espere as respostas sem pressa. Podem vir imagens, palavras, ou apenas sensações.
4. Anote o que surgir.
5. Guarde essa anotação como um lembrete: você está criando algo.
Esse é o seu tempo sagrado.
O tempo certo floresce
Não há um alarme que avise quando está pronto. O que está sendo gerado simplesmente floresce.
E quando acontece, há um instante de reconhecimento. Como se algo em você dissesse: “Era isso.”
Não importa se o mundo entenderá. O sagrado é primeiro interno, depois compartilhado. E, às vezes, nunca compartilhado. Apenas vivido.
Esse tempo que não cabe no relógio é o tempo da verdade.
Por José Ràmmos

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