O riso que nasceu no velório

O silêncio do velório era tão denso que parecia um manto cobrindo a todos. As pessoas se entreolhavam com olhos marejados, e cada gesto era medido, como se qualquer movimento pudesse soar desrespeitoso diante da morte. No entanto, em meio àquele ambiente pesado, algo inesperado aconteceu: um riso tímido brotou.
Era quase um acidente, um deslize. Mas como todo riso genuíno, ele escapou sem pedir licença e, de repente, aquele espaço de luto ganhou uma fissura luminosa.

A cena que ninguém esperava
Naquele salão modesto, cercado por flores e orações, uma família se reunia para se despedir de sua matriarca. Entre os filhos, estava Clara, que sempre fora a mais distraída, a mais espontânea. Ao contar para a irmã mais nova uma lembrança de infância a vez em que a mãe tentou cozinhar feijão sem água e quase incendiou a cozinha, não conseguiu segurar o riso.
Primeiro, apenas seus lábios tremeram, como quem tenta conter uma onda. Mas logo o riso cresceu e ganhou som, um som que destoava do ambiente solene. A irmã tentou pedir silêncio, mas em segundos também estava rindo. E o que era para ser reprimido se espalhou: dois, três, quatro familiares lembrando de histórias engraçadas da falecida.
A dor continuava presente, mas agora misturada à vida que aquela mulher tinha deixado para trás.
O desconforto e o milagre
Alguns se sentiram desconfortáveis. Um vizinho cochichou: “Como podem rir num momento desses?” Outro abanou a cabeça em reprovação.
Mas logo alguém se aproximou do caixão e disse, olhando para a foto da falecida:
— Se ela estivesse aqui, estaria rindo também.
E a tensão se dissolveu. Era como se, naquele instante, a vida tivesse atravessado a morte e lembrado a todos que o riso também é sagrado. Que o luto não precisa ser apenas silêncio pesado, mas pode ser também memória que aquece, alegria que insiste.
A vida insiste em nascer
O riso no velório não foi desrespeito. Foi lembrança. Foi homenagem. Foi vida teimando em nascer no espaço onde a morte parecia absoluta.
A espiritualidade se manifesta justamente assim: no contraste. A lágrima que cai ao lado do sorriso; o abraço que contém dor e gratidão; o silêncio que guarda histórias; a fé que convive com o mistério.
No fundo, o riso não interrompeu o luto. Ele o completou. Porque a pessoa que partiu não era feita apenas de ausências, mas também de risos, falhas, acasos e afetos. Recordar isso é manter viva a chama da sua passagem pelo mundo.

A herança invisível
Naquela noite, quando todos voltaram para casa, a família não levou apenas a memória da despedida. Levou também a lembrança de que, mesmo em meio às perdas, a vida insiste em florescer. O riso que nasceu no velório virou um segredo partilhado: um código silencioso de que a matriarca estava presente não só na dor, mas também no humor, no afeto, na leveza que deixara como marca.
Talvez seja esse o verdadeiro legado: mostrar que o sagrado não está apenas nas lágrimas que descem, mas também nos risos que escapam quando menos esperamos.
O paradoxo do sagrado
A espiritualidade não é feita de extremos isolados, só silêncio, só choro, só luz. Ela se revela no paradoxo, no inesperado, no que parece inadequado. Porque a vida é um tecido onde dor e alegria se entrelaçam.
Rir num velório é lembrar que a morte não tem a última palavra. É dizer que a memória pode ser mais forte do que a ausência. É deixar que a vida continue ecoando, mesmo em lugares onde ela parecia ter sido silenciada.
Fecho impactante
O riso que nasceu no velório não foi um erro: foi um milagre.
Foi a prova de que, diante da morte, a vida sempre encontra um jeito de se anunciar.
Por José Ràmmos

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