Era uma manhã comum, daquelas em que a pressa domina o relógio e cada passo parece calculado. No caminho para o trabalho, um homem cruzou com uma menina que caminhava de mãos dadas com a avó. Ela parou diante de uma poça d’água, inclinou o rosto e sorriu como quem havia encontrado um tesouro. O reflexo do céu, misturado às folhas caídas, parecia para ela mais importante do que qualquer compromisso. O homem seguiu adiante, mas algo dentro dele se perguntou: “Em que momento deixei de olhar assim?”
O olhar da criança tem o poder de revelar o extraordinário escondido no cotidiano. Aquilo que os adultos chamam de banal, ela enxerga como novidade. Onde muitos veem rotina, ela descobre milagre.
A pureza que enxerga além
O olhar da criança não é ingênuo no sentido frágil. É ingênuo no sentido de livre. Ela olha sem o peso das culpas, das comparações e das pressões sociais. Para ela, um pedaço de papel pode ser barco, um galho pode ser espada, uma sombra pode ser personagem.
Esse olhar é um dos maiores recursos de cura. Ao resgatar o olhar da criança, adultos redescobrem a alegria de existir sem a cobrança incessante do desempenho. É como tirar os óculos embaçados da vida e voltar a enxergar com frescor.
A visão apostólica do olhar
O apóstolo compreende a força simbólica da infância. Cristo dizia: “Se não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus”. Não se tratava de regredir em maturidade, mas de recuperar o olhar simples, capaz de reconhecer Deus nas coisas pequenas.
Na visão apostólica, o olhar da criança é um chamado para rever a fé: acreditar sem exigir provas, confiar sem precisar controlar, amar sem medir recompensas.
Histórias que iluminam
Um professor contou que certa vez levou seus alunos a um parque para uma aula de ciências. Enquanto ele explicava sobre o ciclo das plantas, uma criança o interrompeu e perguntou: “E quem ensinou a árvore a nascer?”. A turma riu, mas o professor percebeu que a pergunta continha mais sabedoria do que toda sua explicação.
Uma mãe em luto encontrou consolo no olhar da filha de quatro anos, que a abraçou e disse: “Mamãe, o vovô não foi embora. Ele virou estrela”. Não era apenas fantasia; era uma tradução espiritual que permitia suportar a ausência com beleza.
Um idoso em cadeira de rodas relatou que um menino, ao vê-lo, não demonstrou pena nem estranhamento. Apenas se aproximou e perguntou se podia empurrar a cadeira até a praça. Foi o gesto mais humano que ele havia recebido em anos.
Outra cena aconteceu em um ônibus: uma criança viu uma mulher chorando silenciosamente e, sem entender de adultas razões, ofereceu a ela seu brinquedo favorito. O gesto não resolveu o problema da mulher, mas arrancou dela um sorriso. Foi a lembrança de que ainda havia bondade no mundo.
Quando o adulto esquece de olhar
Com o tempo, muitos deixam de enxergar. Passam pelas ruas sem notar o canto dos pássaros, sentam-se à mesa sem saborear a refeição, convivem com pessoas sem realmente percebê-las.
O olhar da criança lembra que a vida não é apenas meta a cumprir, mas experiência a viver. Ele interrompe a anestesia do automático e devolve o frescor da descoberta.
Recuperando o olhar infantil
• Redescobrir detalhes. Passe alguns minutos por dia reparando em algo pequeno: uma flor, o cheiro do café, o vento que entra pela janela.
• Fazer perguntas simples. Perguntar como uma criança perguntaria: “Por que isso existe?”, “Como isso acontece?”.
• Brincar sem motivo. Dançar sozinho na sala, desenhar rabiscos, cantar alto.
• Ouvir com atenção. Crianças escutam histórias como se fossem sempre novas; o mesmo pode ser feito com as pessoas ao nosso redor.
• Rezar com simplicidade. Uma oração infantil é direta: pede, agradece, confia.
Esses exercícios são formas de desbloquear a rigidez do adulto.
O olhar que cura
Há pessoas que carregam marcas de rejeição ou dor desde cedo. Mas, ao reencontrarem em si o olhar da criança, descobrem que ainda podem sorrir sem motivo, ainda podem confiar, ainda podem se encantar.
Esse olhar tem poder de cura porque devolve a leveza. Ele não apaga os traumas, mas mostra que a vida não precisa ser sempre peso.
Uma psicóloga relatou a história de um paciente que havia perdido o interesse pela vida. Tudo parecia cinza. Até que, em uma sessão, ele mencionou o filho pequeno que o chamou para brincar de construir castelos de areia. Ao aceitar o convite, percebeu que, por alguns minutos, não pensou em problemas nem em dores. O olhar do filho foi a centelha que reacendeu nele a vontade de viver.
Mais histórias do cotidiano
Em um mercado, uma criança pediu ao pai para comprar duas maçãs: uma para ela e outra para a senhora que estava atrás na fila. O pai ficou surpreso com a generosidade espontânea. Ali estava a lição que nenhum sermão havia conseguido ensinar: dividir é gesto natural quando o coração não aprendeu a calcular.
Em uma praça, outra criança observava atentamente uma fileira de formigas carregando folhas. Ao ser questionada sobre o que via de tão interessante, respondeu: “Elas estão levando comida para casa”. A explicação simples carregava poesia e respeito pela vida.
Em uma visita a um museu, um garoto ficou mais interessado em observar as pessoas do que as obras. Ao ser perguntado o porquê, disse: “Quero ver como cada um olha diferente o mesmo quadro”. Sem saber, tocou no mistério da subjetividade e da beleza da diversidade humana.
O convite
Hoje, talvez, você precise emprestar os olhos de uma criança para enxergar a sua própria vida. Talvez precise olhar para o mesmo caminho de sempre como se fosse a primeira vez.
Porque o olhar da criança é mais do que ingenuidade: é espiritualidade em estado puro. Ele revela que o divino está em toda parte, até no reflexo de uma poça d’água esquecida na calçada.
Permita-se essa experiência: olhar para o céu sem pressa, sorrir sem motivo, acreditar que o invisível também tem voz. Esse olhar não é fuga da realidade; é mergulho mais profundo nela. É enxergar com clareza que a vida é presente, e que cada instante guarda em si a eternidade.
Por José Ràmmos