Há silêncios que assustam. Há silêncios que confortam. E há um silêncio tão profundo que se transforma em revelação. Quem já mergulhou debaixo d’água conhece essa sensação: tudo o que parecia barulho desaparece, e de repente o mundo é apenas respiração contida, pressão sobre o corpo e uma imensidão azul que envolve por todos os lados.
Esse silêncio não é vazio. Ele fala. Ele lembra de onde viemos — da água que é berço da vida — e de que somos feitos em grande parte desse mesmo elemento. Mas também revela algo maior: a necessidade de reencontrar, em meio à correria, um espaço de pausa para que a alma respire.
A descida de Marcelo
Marcelo sempre amou o mar, mas sua relação com ele era superficial. Ia à praia, olhava para o horizonte, molhava os pés na espuma. Nunca tinha se permitido mergulhar fundo. Sua vida era feita de ruídos constantes, celulares tocando, buzinas disputando espaço nas ruas, reuniões intermináveis, obrigações sem fim. O silêncio lhe parecia perigoso, quase insuportável.
Quando finalmente decidiu tirar férias, aceitou o convite de um amigo para mergulhar. Recebeu o equipamento, recebeu instruções rápidas, mas não sabia que aquela experiência o levaria a muito além da superfície do oceano.
Ao afundar lentamente, com o oxigênio controlado, sentiu o coração acelerar. O barulho da praia foi ficando distante, dissolvendo-se em pequenas ondas que logo não existiam mais. Só restava o som ritmado da própria respiração dentro da máscara. Ali, envolto pela imensidão líquida, ele experimentou algo que jamais tinha sentido: um silêncio total.
No início, esse silêncio pareceu um vazio ameaçador. Marcelo sentiu medo, como se estivesse perdido num universo sem saídas. Mas, conforme os minutos passavam, percebeu que havia uma calma escondida ali. Um silêncio que não o isolava, mas o abraçava.
O silêncio como espelho
Mergulhar não é apenas descer nas águas; é descer dentro de si.
Marcelo começou a perceber o quanto estava distante de si mesmo. Quantas vezes, em terra firme, ele evitava o silêncio ligando a televisão, abrindo redes sociais, buscando qualquer distração? Quantas vezes tinha medo de parar, porque o parar revelaria angústias escondidas?
Agora, sem nada disso, teve que encarar o que restava: a própria respiração, o próprio coração, a própria solidão.
O silêncio do fundo do mar se tornou um espelho. Ele mostrou a Marcelo que o verdadeiro barulho não vinha do mundo, mas da mente. O oceano apenas calou o exterior para que ele percebesse o interior.
O cotidiano e o mar interior
Todos nós carregamos um “fundo do mar” dentro da vida corrida.
É aquele momento em que, entre compromissos, sentimos o peso do vazio. É quando o trânsito nos obriga a parar, quando a noite nos convida ao recolhimento, quando uma perda silencia nossa rotina.
Muitas vezes tememos esses instantes, porque parecem um corte na linha reta dos dias. Mas talvez sejam convites. O silêncio que Marcelo encontrou debaixo d’água é o mesmo que alguém pode encontrar ao desligar o celular por uma hora, ao olhar para o céu noturno sem pressa, ao se permitir ficar em casa num domingo chuvoso.
O fundo do mar existe em cada pessoa que ousa parar. Não é preciso cilindros de oxigênio para mergulhar. Basta disposição para suportar o desconforto inicial e, em seguida, deixar-se abraçar pelo que parecia vazio.
O sagrado do silêncio
O fundo do mar é apenas metáfora. O verdadeiro mergulho acontece quando aceitamos o silêncio como presença, não como ausência.
É nele que percebemos a grandeza do universo, e o quanto somos pequenos e, ao mesmo tempo, parte dele. É nele que sentimos que há algo maior sustentando cada detalhe, do movimento das ondas às estrelas que brilham a anos-luz.
Chamem como quiserem: Deus, universo, energia, matéria divina. O nome pouco importa. O que importa é a experiência: no silêncio, algo sussurra que não estamos sozinhos.
O silêncio é a linguagem do eterno. Ele não precisa se explicar, porque simplesmente é. Ele não precisa gritar, porque sua força não está no volume, mas na profundidade.
Marcelo volta à superfície
Quando Marcelo emergiu, o barulho do mundo voltou: vozes, motores, vento, instruções do instrutor. Mas algo dentro dele havia mudado. Descobriu que não precisava estar sempre no fundo do mar para reencontrar aquele silêncio. Bastava fechar os olhos, respirar fundo e ouvir o que estava além das distrações.
O silêncio do mar agora vivia dentro dele. A cada vez que se sentia sufocado pela pressa ou pelas obrigações, lembrava-se de que podia mergulhar de novo, não necessariamente no oceano, mas dentro de si mesmo.
O convite para todos nós
Quantas vezes você foge do silêncio, preenchendo cada intervalo com barulho? Quantas vezes evita olhar para dentro, com medo do que pode encontrar?
O fundo do mar não é apenas geográfico; é existencial. Ele está na pausa que você recusa, no tempo que você diz não ter, no espaço de calma que você empurra para amanhã.
Talvez seja hora de aceitar o convite. Mergulhar. Silenciar. Respirar. Deixar-se envolver pelo que parece ausência, mas é presença.
Fecho impactante
O silêncio no fundo do mar não é ausência de vida.
É justamente onde a vida fala mais alto.
E talvez seja isso que precisamos aprender: mergulhar em nós mesmos para ouvir a voz que não grita, mas sustenta tudo.
Por José Ràmmos

O riso que nasceu no velório
O silêncio do velório era tão denso que parecia um manto cobrindo a todos. As pessoas se entreolhavam com olhos