Era madrugada.
Nenhuma voz, nenhum som de televisão, nenhum carro passando. Apenas o silêncio. Mas não era um silêncio vazio, era um silêncio cheio. Ele parecia ter corpo, como se preenchesse o espaço entre as paredes. Quem já experimentou sabe: existem silêncios que pesam e silêncios que libertam.
No corre corre do dia, somos engolidos por vozes externas. O celular que vibra, as conversas apressadas, os avisos que pipocam. Quando finalmente o barulho se cala, muita gente sente temor. Temor de se escutar. Porque o silêncio devolve aquilo que a pressa esconde: o que dói, o que clama, o que pede cuidado.
Espelho quieto
O silêncio é um espelho. Ele reflete a saudade que evitamos, o perdão que adiamos, a palavra de amor que nunca ousamos dizer. É nele que a alma, como criança tímida, cria coragem para sair do esconderijo.
Conheci uma mulher que ligava a TV para dormir. Jurava que precisava de “barulho de companhia”. Numa noite, a energia acabou no bairro. Sem luz, sem som, sem distração, ficou apenas o próprio coração batendo na sala. Primeiro veio a inquietação, depois as lágrimas, e por fim, um alívio manso: “Eu estou viva. Eu não estou só.” Naquela madrugada, o silêncio foi enfermeiro.
Curas sem som
Aprendi que há escutas que curam mais do que conselhos. Um silêncio verdadeiro, presente, pode costurar feridas que palavras desajeitadas rasgariam de novo. É no espaço entre uma pergunta e outra que o invisível trabalha.
Um amigo terapeuta me contou certa vez que ele intermediou uma sessão difícil, com um pai e um filho que não se falavam havia anos. Ele estava preparado para ouvir frases duras. Pediu apenas um minuto de silêncio. Um minuto inteiro. No começo, ambos desviaram os olhos. Depois, o pai tirou o relógio do pulso e o empurrou devagar pela mesa. O filho entendeu o gesto: “Eu te devo tempo”. Não precisei traduzir. O silêncio disse tudo.
Voz mansa
Elias, no Antigo Testamento, esperou Deus no vento forte, no terremoto, no fogo. Ele veio num sussurro. O sagrado nem sempre chega como trombeta; tantas vezes chega como brisa que arranha o tímpano por dentro e, mesmo assim, diz tudo. Cristo também se retirava para lugares solitários. Antes das grandes decisões, não buscou aplauso, buscou silêncio. É nele que a alma distingue o que é vontade do ego e o que é chamado.
Onde o silêncio mora
O silêncio tem muitos sotaques:
• No hospital, quando duas pessoas aguardam um exame e as mãos se procuram.
• No velório, onde abraços substituem dicionários inteiros.
• No ônibus lotado, quando alguém cede o lugar sem anunciar virtude.
• No jantar de família, quando uma ferida antiga quase vira grito e você escolhe respirar.
• Na oficina de um artesão, onde o cuidado fala mais alto que o martelo.
• No quintal da infância, quando a lembrança de um cheiro abre uma oração que você nem sabia que sabia.
Lições de uma pausa
Um amigo perdeu o emprego e, com ele, a confiança. Passou semanas caçando saídas em abas do navegador, cursos, tutoriais. Um dia, esgotado, fechou tudo e foi varrer a varanda. O barulho das cerdas no chão virou metrônomo. Ao final, sentou-se. Nada “milagroso” aconteceu. Mas, pela primeira vez em meses, ele sentiu paz. O silêncio não trouxe um contrato; trouxe centímetro por centímetro de chão firme por dentro, o bastante para escrever o currículo com outra presença. Pouco depois, veio a vaga.
O apóstolo dentro
Há um apóstolo em cada pessoa comum que decide semear paz no que toca. Não precisa púlpito. Precisa presença. Quando você segura a própria língua para não ferir, quando escuta sem interromper, quando oferece um copo d’água sem anunciar bondade, o apóstolo em você pregou um sermão silencioso. “Eu sou uma gota de água pura na taça da vida de todas as pessoas”: esse mantra, simples e humilde, é uma liturgia diária.
Passos práticos (sem barulho)
Se o silêncio assusta, comece pequeno:
1. Dois minutos por dia. Desligue o aparelho, feche os olhos e observe a respiração. Dois minutos cabem em qualquer agenda.
2. Escuta compassiva. Em uma conversa difícil, responda só depois de repetir mentalmente o que você ouviu. O silêncio entre ouvir e reagir evita ferir.
3. Ritual do lugar. Escolha um canto da casa, limpe, acenda uma vela ou deixe uma flor. Volte ali sempre. O corpo aprende a silenciar onde há cuidado.
4. Jejum de ruído. Um dia por semana sem notificação. Se algo é urgente, baterão à porta.
5. Caminho sem fone. Ande algumas quadras apenas ouvindo a cidade. Até o trânsito tem recados.
O que o silêncio não é
Silêncio não é fuga covarde, nem omissão diante da injustiça. Há horas de falar alto e claro. O silêncio de que tratamos é o que prepara a fala certa, na hora certa, com a coragem certa. Ele não nos cala; ele nos afina.
Quando o silêncio encontra Deus
Talvez você chame de Deus, Fonte, Amor, Mistério. Pouco importa o nome quando o encontro acontece. Muitas vezes, ele chega sem fanfarra, como uma certeza mansa: “Eu não estou abandonado”. Outras, como arrepio. Outras, como lacuna que, de tão vazia, vira espaço para algo novo nascer.
Hoje, faça a experiência. Dê ao silêncio um copo de água. Convide-o para entrar. Se doer no começo, é porque ele está limpando. Se der medo, respire dentro do medo. Aos poucos, você perceberá: o silêncio não é mudo. Ele é verbo discreto, presença que não exige palco. E quando essa presença se torna casa, até os ruídos do mundo ganham música, porque por dentro tudo está afinado.
No fim, o silêncio fala quando nós paramos de brigar com ele. Ele só precisa de um corpo que pare, de um coração que escute, de uma mente que não atrapalhe. O resto, o invisível faz.
Por José Ràmmos

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